MEU IRMÃO PAULO

Ser irmão mais velho, para mim, sempre foi bom demais, morou?!

Irmão mais novo é um parceiro!

Ouve você em tudo e qualquer parlatório. Olhos atentos. Firmes.

Você ensina.

Cuida.

 

O meu irmão Paulo era quatro anos, sete meses e oito dias mais novo que eu.

Também é só um ano, dez meses e quinze dias mais novo que a nossa irmã do meio, Paula.

Sou o mais velho! Bacana!!!

 

Sempre cuidei deles.

Dos dois. Dava exemplo!

 

Nunca troquei fraldas, porém dei mamadeira.

Vi se estava muito quente ou muito frio. Pegava as roupas na gaveta. Cuidava.

 

Dava muita água, principalmente depois que ele pegou desidratação duas vezes em Pedra Alta.

— Já tomou água?

 

Ensinei a andar de bicicleta… E as “regrinhas do bem-viver”:

 

Chegando, de manhã: Bom dia

Chegando, à tarde: Boa tarde

Chegando, à noite: Boa noite

Indo embora, sempre: Até logo!

Usou a mão, perdeu a razão

 

Ter irmãos menores é muito bom!

 

Onde podia, levava o Paulo.

… sempre assim. Juntos.

 

A molecada dizia que ele era o mascote ou o meu chaveirinho.

 

O meu tio João nos chamava de dupla dinâmica: Pretinho e Preto, os cantadores da capital;

 

Sim, sou um negro de cor

Meu irmão de minha cor

O que te peço é luta sim

Luta mais!

Que a luta está no fim…

 

Palmas

Aplausos

E vários bis.

 

Para os irmãos mais novos a gente ensina a atravessar a rua e aprende a ter paciência. Cada um é cada um, né?

 

Para a irmãzinha, você brinca de boneca, sempre sendo o pai que tem uma identidade secreta de super-herói e salva o mundo antes do jantar.

Paulo aprendeu comigo a chutar com os dois pés e me vi orgulhoso quando pegou tudo no gol.

Paula a pular corda. Sal e pimenta.

Pelo irmão mais novo a gente descasca laranja e de surpresa recebe um pedação de bolo da festa que ele foi.

Da irmã mais nova você recebe um carinho quando está com febre alta.

O irmão torce para o seu time.

A irmã gosta dos mesmos desenhos.

 

No final do ano de 1971, meio de dezembro, a minha mãe, sem querer, comentou no jantar com o meu pai que no próximo ano, 1972, o Paulo ia para o primeiro ano.

Foi um grande bafafá!

 

O meninão estava com tudo e estava muito prosa! Falava mais que a matraca. Só pensava que ia para a escola.

 

Ninguém teve sossego até que ele conseguisse de presente de Natal o calçado preto e duas meias três quartos. Um short azul marinho do padrinho e a camisa branca da minha tia Edith, que teve de desmanchar uma blusa da minha irmã e apertar, pois o Paulo era um carrapato.

 

Janeiro inteiro ele ficava querendo que a gente desse lição. Nem eu ou a Paula fizemos.

 

Cartilha do Pedrinho

Cartilha da Estrela

Cartilha da Lulu

e a mais famosa e irônica: Caminho Suave.

 

…uma brasa, mora?!?

 

Eu soube ler aos três.

Paula aos quatro.

Paulo só aos cinco.

 

Nossa diversão era ou ir à escola da minha mãe, as professoras eram muito bacanas,

Ou na escola que meu pai era diretor. A molecada era legal mesmo!

 

Fevereiro. Ele estava na Cartilha de Bitu

 

Bitu bate bola

A bola bate no cavalo

 Cavalo corre.

Cavalo bôbo.

 A bola bate no soldado

O soldado fica danado

 

As aulas começaram no dia 6 de março de 1972, uma segunda.

No sábado anterior, o Paulo fez que fez até que conseguiu convencer a minha mãe a ir à escola e ver com qual professora e em qual classe ficaria.

Viu e até falou “oi” para a nova professora: Dona Ana Francisca.

Estava na primeira série B.

 

Aulas iniciam às uma hora da tarde.

Seis da manhã Paulo estava pronto, uniformizado e querendo sair. Escondemos a lancheira dele para ele não ir e dar “o café para o diretor”.

Não almoçou.

 

Meio dia escapou sem a lancheira.

— Num tô cum fome…

 

A escola do bairro era, andando muito devagar, feito uma lesma lerda, dez minutos de casa. E ele foi sozinho, não quis ninguém junto, nem a minha irmã que estudava na segunda série no mesmo horário.

 

Ele foi na frente e muito antes. Toda prosa!

Sentindo-se um tremendão.

 

Neste mesmo dia, também à tarde, iniciei a minha vida escolar em uma escola estadual do centro, quinta série. Tinha que ir de ônibus.

 

Escola grande.

Onde eu era um dos maiores na escola do bairro, ali era um dos menores.

Fiquei um bobão.

 

Perdi um tempão no pátio procurando a minha fila.

Por fim, descobri que na quinta série não tinha mais fila e aos sábados podia ir na escola sem o uniforme.

 

Susto.

Temores.

E fiquei amigo do Anselmo, do Nilson, do Maurício e do Alberto.

 

Terminado, voltei num corisco. Precisava saber como foi o primeiro dia de aula do meu irmão.

 

Quando cheguei, ele estava calmamente vendo televisão. Era a novela “Meu pedacinho de chão”.

— Como foi?

— O quê?

— Paulo?!? O seu primeiro dia de aula!

— Venham jantar! Não esqueçam de lavar as mãos — ordenou a nossa mãe. E como o último era a mulher do padre, Paulo chegou bem depois.

 

Como sempre, com risco eminente e real de não ver televisão pela vida toda,

Mastigamos devagar.

Com a boca fechada.

Comemos tudo do prato e não brigamos.

Também ninguém falou nada, pois no meio do jantar chegou o meu pai e contou as peripécias da escola naquele dia. Primeiro dia de aula não foi fácil para ninguém.

Percebi que não adiantava cercar. Paulo é cabeça dura.

Quando assistia o episódio do Ultraman no canal 13, ele veio contar.

— Só depois que acabar o episódio — ele foi acabrunhado no nosso quarto.

— Tá… Como foi?

— Você sabe que eu fique no meio do pátio, perto de onde fazem a fila. Sabia disso porque a Paula me falou. Tava ali, com um olho na escada, esperando a professora, e o outro no lugar, pois eu queria ficar no meio. De repente: “Ei, pretinho? Ei?” Até achei que era o tio Joãozinho, mas lembrei que ele está sumido há um tempão. Fique comigo ali, quieto, fazendo conta. 2 x 1 = 2. 2 x 2 = 4. 2 x 3 = 6. 2 x 4 = 8. Quando novamente ouço, mais alto. “Ei, ocê de uniforme, ei pretinho!”. Era comigo mesmo. Só podia, pois tinha visto e eu era o único de uniforme.Virei e vi que era um grandão que tinha estudado com você, o Mauro. Ele repetiu, né?

— Sim, repetiu.

— E depois?

— Logo a professora mandou a gente fazer a fila. Cantamos o hino nacional e subimos.

— Tá! E depois?

— A aula foi chata pra caramba. Já sabia de tudo!

Formado em Estudos Linguísticos pela USP, Plínio Camillo nasceu em Ribeirão Preto em 1960 e reside em São Paulo. O escritor - ou como ele próprio se define escrevinhador - é também ator, roteirista, diretor teatral e educador social, além de palestrante e promotor de oficinas de escrita. É autor de Notas de Escurecimento - contos de escrevivência, lançado em 2019 pela Colli Books. Com linguagem peculiar e instigante, o livro apresenta nove contos de "escrevivência", que propõem um mergulho ao universo da cultura negra. Uma leitura agradável, surpreendente e carregada de símbolos e significados. Seu primeiro livro, O namorado do papai ronca, voltado ao público infantojuvenil e publicado em 2012, foi premiado pelo Concurso de Apoio a Projetos de Primeira Publicação de Livro no Estado de São Paulo – ProAC. Também é autor de: coletânea de contos Coração Peludo (Editora Kazuá - 2014); Outras vozes (11 Editora - 2015); participou da coletânea Descontos de fadas (@link Editora - 2016); Luiza (Editora Kazuá - 2018)

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