VOU GANHAR UMA BICICLETA SE PASSAR COM MAIS DO QUE NOVENTA

Vou ganhar uma bicicleta se passar com mais do que noventa!

Numa quinta de outubro, com o semblante muito preocupado, meu pai, quando voltou da escola, me desafiou: “Passando de ano com mais de noventa, você ganha uma bicicleta, que tal?!”

— Oba!!!

Na primeira sexta de dezembro, entrego o meu boletim com nota 91 para o meu pai.

Na verdade, tirei 89!

Choraminguei muito com a minha colega Cristina Resende.

— Oh vida! Oh! Azar! Se tirasse mais de noventa ia ganhar uma bicicleta.

 

E ela foi pedir um acerto para nossa professora Marybel.

— Se o Joair tirar mais de noventa, ele vai ganhar uma bicicleta.

Alafiá!!!! Tirei 91!

Na segunda, estou “audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve” com minha bicicleta vermelha!

Cuidadosamente levando, um de cada vez, meus irmãos na garupa.

Até andar com firmeza, tivemos alguns tombos.

Um dia depois do Natal faço exploração pelo meu bairro. Desço a Rua Gamboa, em alta velocidade, até a Juazeiro. Nela com destreza, subo até a Nuporanga. Plana, vou até a Alenquer, corto pelo terrenão e chego a Ibiapava, subo e desço até o Largo do Paraíso. Descanso.

Volto pela Jabaquara até o final, que é a Portugal. Passo perto do casarão abandonado. Ouço um grito lancinante. Não preocupado com a minha segurança e pensando somente no próximo, com toda a cautela, adentro no ressinto. Claro que antes, deixo a minha vermelha bicicleta muito bem escondida e camuflada.

Lugar muito escuro.

Malcheiroso.

Soturno.

Sombrio.

Guiado pelos gritos pungentes, vislumbro em um grande cômodo o nosso herói, Badé, sendo cruelmente torturado pelos visigodos da Rua de Cima. Como todos sabemos, Badé é um destemido paladino possuidor da força de vinte e seis homens, capaz de voar por mais de quarenta horas sem se cansar e ficar sem respirar por 51 dias! Portador de todas as grandes armas dos orixás: o machado de Xangô, a espada de Ogun e o arco de Logunedé. Possui a inteligência de Oxun e a coragem de Obá, porém tem uma fraqueza: ser amarrado por cordas feitas de penas de galinha branca e pelo de carneiro.

Abatido, ele breve morreria.

Como um corisco e de bicicleta, vou até a padaria do seu Casimiro e trago dois refrigerantes.

Agradecido, Badé me oferece poderes nunca dantes imaginados.

Fica no lugar quando a briga é de amargar!

Em Lagbara eu me transformei. Através de Badé recebi de Exu a sua disposição e a facilidade de encontrar os caminhos, de Oxun o poder de comandar as águas, de Ogun a persistência e o vigor, de Omolú o poder de curar-se, e de Oxossi o dom de transformar-me em um grandioso elefante ou uma minúscula borboleta. Mantenho a minha identidade secreta de Joair.Como o combinado, no ano seguinte estudo no colégio do centro. Porém, todos os dias, patrulho a minha cidade na vermelha bicicleta que, em caso de perigo, também se transforma em Pupa, o maravilhoso cavalo vermelho voador. Luto aqui.Batalho lá.Salvo as pessoas em todos os lugares.Até arranjo uma namorada, Cristina Resende, repórter de um grande jornal local. Não confidenciei a minha identidade, pois poderia colocá-la em perigo. Porém, mesmo assim, ela foi aprisionada pelo meu arquirrival: Dr. Teodorico e sua gangue, os Ostrogodos da Rua Debaixo. Revirei a cidade atrás dela.O estado.O país.Orun. Até que o encurralei no alto do Cristo Redentor. Ele covardemente a joga de lá. Não tive chance de salvá-la.Irado, invoco um raio que fulmina o facínora desatinado. Percebi que, além de tudo, tinha muita inveja de mim!

 

Seu cérebro é brilhante. É um cavaleiro de armadura reluzente.

Cresço.

Faço o colegial.

E entro na faculdade de Direto.

Voltando de uma missão no espaço com o Capitão 7, Velta e o sempre simpático Flama, somos atingidos por um raio negativo-tira-poderes criado pelo Professor Estevão e os seus Sorábios Incandescentes da Rua do Meio. Tribo europeia que insiste em dominar o mundo.

Ficamos impotentes.

Sem os poderosos heróis, a cidade fica à mercê desses meliantes que assumem a prefeitura, bagunçam o bairro e até xingam a minha mãe que estava voltando da escola.

Aquilo mexeu com os meus brios. Não sou disto, porém precisava ser humilde e pedir ajuda para Badé.

Ele me fazendo prometer nunca tentar bater no meu irmão, restaura os nossos poderes.

Temos uma grande batalha no centro cívico da cidade. Salvamos o prefeito e os vereadores e faço todos os Sorábios pedirem perdão para minha mãe.

 

Tenho poderes, posso viajar!

 

Até viro gibi nos Estados Unidos.

Salvo a cidade diversas vezes!

Também Kaifeng, Ayutthaya, Bagdá, Brasília, Constantinopla, Londres, Nova York, Pequim, Roma, São Paulo, Tóquio e Pindamonhangaba.

 

Entre bravos se criou! Seu nome lenda de tornou!

 

Lagbara, o barra limpa. Lenha pura!

Durante uma luta contra o Godzilla nas praias do Recife, Serena, a perversa bruxa no norte da Pensilvânia, nos teletransporta para o passado.

Bem para o ano de 1971.

Outubro.

Rapidamente, derroto o monstro e o deixo adormecido na região de San Andreas Fault.

Tento, com minhas forças, retornar no meu tempo, porém não consegui. Até que recebi uma mensagem de Exu, que orientava a procurar o meu eu naquele momento.

Fui até o Campinho da Rua Gamboa, e lá estava eu, esperando entrar no segundo tempo do jogo do Brasinha, meu time, contra os Herculóides, time do Jardim Estela. Discretamente, chamo eu mesmo para um canto e explico o ocorrido.

Eu não acredito.

Ínsito.

Eu fugo.

Ameaço com o meu machado.

Concordo em ajudar, mas como?

Não sei.

Ficamos ali conversando até que com sede, vou à padaria do seu Casimiro e trago dois refrigerantes para nós dois. Tive a ideia de pedir orientação para Ifá.

Bárbaro!

Isso mesmo!

Ele me orienta.

Faço um ebô e tenho um vislumbre de como retornar para o meu tempo.

Aproveito que eu, pequeno, adormeci, e incuto em meu pai a ideia e me dar uma bicicleta. Já com o velho truque da pílula do deslembrar, uso em mim mais novo e volto deixando-me feliz e esquecido de todas as aventuras que vou lembrar para sempre.

Numa quinta de outubro, com o semblante muito preocupado, meu pai, quando volta da escola, me desafia: “Passando de ano com mais de noventa, você ganha uma bicicleta!”

Formado em Estudos Linguísticos pela USP, Plínio Camillo nasceu em Ribeirão Preto em 1960 e reside em São Paulo. O escritor - ou como ele próprio se define escrevinhador - é também ator, roteirista, diretor teatral e educador social, além de palestrante e promotor de oficinas de escrita. É autor de Notas de Escurecimento - contos de escrevivência, lançado em 2019 pela Colli Books. Com linguagem peculiar e instigante, o livro apresenta nove contos de "escrevivência", que propõem um mergulho ao universo da cultura negra. Uma leitura agradável, surpreendente e carregada de símbolos e significados. Seu primeiro livro, O namorado do papai ronca, voltado ao público infantojuvenil e publicado em 2012, foi premiado pelo Concurso de Apoio a Projetos de Primeira Publicação de Livro no Estado de São Paulo – ProAC. Também é autor de: coletânea de contos Coração Peludo (Editora Kazuá - 2014); Outras vozes (11 Editora - 2015); participou da coletânea Descontos de fadas (@link Editora - 2016); Luiza (Editora Kazuá - 2018)

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